Limites


9.3.14



Uma amiga publicou essa foto com estes dizeres:

“Às vezes o conflito transborda pelos olhos! Crescer é difícil mesmo filha... as obrigações às vezes nos incomodam, mas saber que devemos fazê-las nos torna valorosos. Te amo.”

Essa história rendeu! Foram muitas as conversas consternadas pela situação:

_ Que dó, essa lágrima mata a gente! O que houve com essa pessoinha tão linda?

Então a mãe, daquelas que ninguém pode botar defeito: amorosa, presente, sensível, que ama seu papel e sabe curtir suas três crias, responde:

_Ter que cumprir as obrigações: fazer a tarefa, ir à escola, guardar suas roupas...

Queria multiplicar essa mãe, fazê-la em série e sair distribuindo por aí, rsrs, porque infelizmente, e com tristeza, considero-a raridade! Os pais hoje não querem frustrar, educar, colocar limites! .

Li um artigo da jornalista, escritora e documentarista Eliane Brum, considerei tão oportuno, que decidi compartilhá-lo, não na íntegra pelo seu tamanho:

“Ao conviver com os bem mais jovens, com os que se tornaram adultos há pouco e também com os que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, a mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.

Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia.

Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.

Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.

Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes...

É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais? Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor...

Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer... Pais e filhos têm pago caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso.

Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”...

Possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer...

Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. ssim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”; porque fingir que está tudo bem e que tudo pode, significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência”.

Concluo com a fala da especial mãe e educadora que inspirou essa reflexão: “Tenho o dever de transformar as lágrimas dessa pequena em alegria e força”!

 

Paz!

 


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