Eles se vão


30.5.25


Nas saídas com as amigas percebi que as narrativas mudaram. Antes, prioritariamente, confabulávamos sobre a condução dos filhos. Dedicadas, queríamos compreende-los, motiva-los, guiá-los. Tínhamos alguns moldes, íamos arriscando, mas bem sabíamos o que não seria possível negociar. Contávamos nossas dificuldades, limites, correções, machucados mútuos, também prazeres, merecimentos, vitórias. 

Dar conta do recado era como uma coroa, não renunciaríamos, “custe o que custar”. Estávamos cientes de que formá-los se tratava de um processo ininterrupto, obstinado. 

Com eles, por vezes, os diálogos eram bem difíceis, embaraçados, já em outras, carregados de sintonia e afeto. Gradualmente fomos sendo transformados, valores confirmados. Atravessamos. 

O tempo passou. Crescemos juntos. Eles também se tornaram modelos, abrigos.   

Com a saída deles, as obrigações, os rituais e o estado de alerta já não nos pertenciam mais; e sem plateia nossa alma silenciou, o vazio surgiu na janela, o sentimento de inutilidade quis tomar assento. 

O fato é que impactadas com tantas ausências, mesmo que inconscientemente, corremos o risco de querer desconstruir suas crenças de autonomia/ competência; com isso, começamos a antecipar soluções, invalidar suas escolhas, super valorizar nossas experiências, vivências. O complicado é que essa invasão e descrédito vindo de pessoas tão essenciais, ainda mais fundamentados no amor e zelo, acabam, indubitavelmente, influenciando negativamente na auto imagem desses filhos, comprometendo, de fato, sua segurança e razão. 

Eles se vão, e agora, não nos preparamos pra essa estação? Ficaremos afetadas, frustradas? Não sabemos amar sem proteger ou comandar?

Possivelmente esse cenário de controle e interferência desrespeitosa da nossa parte, pais, seguirá dois rumos: Ou se redundará em sentimento de fracasso, menos valia e dependência, ou em repulsa, desconsideração, indiferença; qualquer um desses caminhos geram sofrimento e desordem recíprocos.

A vida exige de nós maturidade, portanto, resgatemos nossa velha lucidez, tão indispensável nesse arremate; afinal, nossos ensinamentos, ensaios, e as tantas conversas, não tinham essa finalidade que gerissem a própria vida, que fossem livres e alçassem voos? 

O que nos aconteceu? Nos perdemos? 

Quem de fato queremos poupar, a eles, das consequências dos seus possíveis erros, porque, como nós, consumarão acertos e erros; ou a nós, de ter que, a essa altura do campeonato, entrar em contato com nosso vazio e fantasmas?

Calma, respira. Você consegue acreditar que entregou o seu melhor, mesmo não achando que foi suficientemente bom? Se perdoe. Nós também tivemos pais ineficientes e imperfeitos. Agora é a vez deles processarem suas próprias dificuldades e faltas. Eles conseguirão. 

Esqueça os moldes, expectativas, idealizações. Seja gentil. Prudente. Ampare. Expresse seus pontos de vista quando convidado, não tente persuadi-los. É desafiador, complexo, mas celebre esse "ir", é a vida seguindo. Desprenda. O casulo precisa ser desfeito pra que o voo aconteça. Seu distanciamento, com propósito, lhe redundará em respeito e honra. Ademais, relembre, você também um dia "foi".

Não cesse de interceder por eles, a misericórdia e o favor do Deus que tudo vê, os guardará. Meu marido e eu temos provado disso nessa nossa colheita. Sobre nossos filhos, é certo que nos enchem de orgulho.  “No temor do Senhor tem o homem forte amparo, e isso é refúgio para os seus filhos.” Provérbios 14:26. Que eles tenham na memória suas práticas de amor e fé.

Por fim, desacelere. Persiga a leveza. Comemore suas conquistas. Cuide da sua vida espiritual, emocional e física. Se comprometa em olhar pra você mesmo, redescubra seus prazeres. Seu tempo tão precioso agora é seu, desfrute com sabedoria. Encontre com as amigas, aquelas especiais, com certeza são dádivas do Altíssimo. Rir e chorar com elas trazem cura. E nesse seu novo ciclo descubra lugares e pessoas onde você seja como um presente. Frutifique. Seja útil.


 Paz.


Um comentário:

  1. Muito bonita a sua reflexão. É isso mesmo. Dos meus 3 filhos, não tenho nenhum fisicamente comigo. Mas, tenho a certeza que fiz o máximo que pude para eles criarem as próprias asas, processo inexorável da vida. Agora, é cuidar de nós e criar novas rotinas desapegadas das outras que tivemos quando eles tinham 1 mes, 1 ano, adolecência, adultos.

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