Nas saídas com as amigas percebi que as narrativas mudaram. Antes,
prioritariamente, confabulávamos sobre a condução dos filhos. Dedicadas,
queríamos compreende-los, motiva-los, guiá-los. Tínhamos alguns moldes, íamos
arriscando, mas bem sabíamos o que não seria possível negociar. Contávamos
nossas dificuldades, limites, correções, machucados mútuos, também
prazeres, merecimentos, vitórias.
Dar conta do recado era como uma coroa, não
renunciaríamos, “custe o que custar”. Estávamos cientes de que formá-los se
tratava de um processo ininterrupto, obstinado.
Com
eles, por vezes, os diálogos eram bem difíceis, embaraçados, já em outras,
carregados de sintonia e afeto. Gradualmente fomos sendo
transformados, valores confirmados. Atravessamos.
O tempo passou. Crescemos juntos. Eles
também se tornaram modelos, abrigos.
Com a saída deles, as obrigações, os rituais e o estado de alerta já não
nos pertenciam mais; e sem plateia nossa alma silenciou, o vazio surgiu na
janela, o sentimento de inutilidade quis tomar assento.
O fato é que impactadas com tantas ausências, mesmo que inconscientemente, corremos o
risco de querer desconstruir suas crenças de autonomia/ competência; com isso, começamos a antecipar soluções, invalidar suas escolhas, super
valorizar nossas experiências, vivências. O complicado é que essa invasão e
descrédito vindo de pessoas tão essenciais, ainda mais fundamentados
no amor e zelo, acabam, indubitavelmente, influenciando negativamente na
auto imagem desses filhos, comprometendo, de fato, sua segurança e razão.
Eles se vão, e agora, não nos preparamos pra essa estação? Ficaremos afetadas, frustradas? Não sabemos amar sem proteger ou comandar?
Possivelmente esse cenário de controle e interferência desrespeitosa da nossa parte, pais, seguirá dois rumos: Ou se redundará em sentimento de fracasso, menos valia e
dependência, ou em repulsa, desconsideração, indiferença; qualquer um desses
caminhos geram sofrimento e desordem recíprocos.
A vida exige de nós maturidade, portanto, resgatemos nossa velha lucidez, tão indispensável nesse arremate; afinal, nossos ensinamentos, ensaios, e as tantas conversas, não tinham essa finalidade que gerissem a própria vida, que fossem livres e alçassem voos?
O que nos aconteceu? Nos perdemos?
Quem de fato queremos poupar, a eles, das consequências dos seus possíveis erros, porque, como nós, consumarão acertos e erros; ou a nós, de ter que, a essa altura do campeonato, entrar em contato com nosso vazio e fantasmas?
Calma,
respira. Você consegue acreditar que entregou o seu melhor, mesmo não achando que foi suficientemente bom? Se perdoe. Nós também tivemos pais ineficientes
e imperfeitos. Agora é a vez deles processarem suas próprias dificuldades e faltas. Eles conseguirão.
Esqueça
os moldes, expectativas, idealizações. Seja gentil. Prudente. Ampare. Expresse
seus pontos de vista quando convidado, não tente persuadi-los. É desafiador, complexo, mas celebre esse "ir", é a vida seguindo. Desprenda. O casulo precisa ser desfeito pra que o voo aconteça. Seu
distanciamento, com propósito, lhe redundará em respeito e honra. Ademais, relembre, você também um dia "foi".
Não cesse de interceder por eles, a misericórdia e o favor do Deus que tudo vê, os guardará. Meu marido e eu temos provado disso nessa nossa colheita. Sobre nossos filhos, é certo que nos enchem de orgulho. “No temor do
Senhor tem o homem forte amparo, e isso é refúgio para os seus filhos.” Provérbios 14:26. Que eles tenham na memória suas práticas de amor e fé.
Por fim, desacelere. Persiga a leveza. Comemore suas conquistas. Cuide da sua vida
espiritual, emocional e física. Se comprometa em olhar pra você mesmo, redescubra
seus prazeres. Seu tempo tão precioso agora é seu, desfrute com sabedoria. Encontre com as amigas, aquelas especiais, com certeza são dádivas do Altíssimo. Rir e chorar com elas trazem
cura. E nesse seu novo ciclo descubra lugares e pessoas onde você seja como um
presente. Frutifique. Seja útil.
Paz.